Regina Cohen: Arquitetura, acessibilidade e longevidade: Projetando Cidades mais Humanas, Resilientes e Felizes Para Todas as Idades

Por Regina Cohen

1. Arquitetura, acessibilidade e longevidade

Este artigo aborda o envelhecimento populacional como um dos principais desafios contemporâneos do planejamento urbano. Destaca a necessidade de cidades inclusivas, capazes de garantir acessibilidade, autonomia e qualidade de vida ao longo de todo o ciclo de vida. O texto articula os conceitos de arquitetura, acessibilidade e longevidade como elementos indissociáveis para a construção de ambientes mais humanos, resilientes e socialmente justos. Ressalta ainda que a acessibilidade deve ser entendida como estratégia de longevidade, indo além do mero cumprimento normativo, e enfatiza o papel do design universal e do conceito de ageing in place na promoção do envelhecimento ativo e saudável.

O aumento da expectativa de vida e o acelerado processo de envelhecimento populacional impõem novos desafios às cidades contemporâneas. Nesse contexto, torna-se indispensável repensar o ambiente urbano de modo a garantir acessibilidade, autonomia e qualidade de vida para pessoas de todas as idades. Projetar espaços urbanos inclusivos é condição fundamental para promover a longevidade saudável, especialmente para idosos e pessoas com mobilidade reduzida.

Expectativa de vida e processo de envelhecimento
Expectativa de vida e processo de envelhecimento

O crescimento expressivo da população idosa, observado mundialmente e de forma acentuada no Brasil, exige uma revisão profunda das estratégias de planejamento urbano. Nosso país, por exemplo, vem envelhecendo rapidamente: até 2050, mais de 30% da população será idosa. Isso traz desafios e oportunidades em áreas como: saúde preventiva e reabilitação; moradia adaptada; transporte acessível; Inclusão digital e social; educação ao longo da vida.

Essa transformação demanda políticas públicas eficazes, infraestrutura acessível e serviços capazes de atender às necessidades de diferentes faixas etárias, considerando a diversidade funcional presente ao longo da vida.

Arquitetura, acessibilidade e longevidade constituem um trio indissociável na construção de cidades e edifícios mais humanos, resilientes, felizes e socialmente justos. A arquitetura pode ser compreendida como o meio pelo qual o espaço se transforma em experiência, antecipando necessidades, acolhendo diferentes corpos e acompanhando as mudanças inerentes ao envelhecimento. A acessibilidade, por sua vez, ultrapassa o simples atendimento às normas técnicas, como a NBR 9050 da ABNT, e assume o papel de garantir segurança, autonomia e dignidade a todas as pessoas, com ou sem deficiência, em qualquer etapa da vida.

Nesse sentido, a acessibilidade deve ser compreendida não como exceção, mas como estratégia essencial de longevidade. Ambientes acessíveis promovem independência, segurança e bem-estar, além de contribuírem para o envelhecimento ativo e saudável. O design universal estabelece a ponte entre acessibilidade e longevidade ao propor a criação de espaços pensados para todos desde o início com circulações claras, comunicação acessível e conforto ambiental, consolidando uma abordagem urbana mais inclusiva e sustentável.

A longevidade reflete não apenas o aumento da expectativa de vida, mas também a ampliação da diversidade funcional ao longo do tempo.

Idosos na cidade
Idosos na cidade

Projetar para a longevidade significa conceber espaços adaptáveis, flexíveis e duráveis, capazes de envelhecer junto com seus usuários. Quando esses três princípios se integram, surgem ambientes inclusivos desde a concepção, preparados para o envelhecimento populacional e sustentáveis do ponto de vista social e econômico, mais seguros, confortáveis e acolhedores para todos.

Apesar dos avanços, persistem desafios significativos para a construção de cidades verdadeiramente inclusivas, como limitações orçamentárias, falhas na fiscalização e barreiras culturais, além da falta de informação ou entendimento concreto das normas. Ainda assim, a longevidade representa uma oportunidade estratégica para inovar em políticas públicas, fortalecer o engajamento social e promover ambientes urbanos acessíveis mais saudáveis e equitativos que garantam independência e segurança para todos, incluindo os idosos.

2. Acessibilidade e longevidade: Projetando cidades para todas as idades

Acessibilidade refere-se à garantia de que todas as pessoas possam participar plenamente da vida social, independentemente de idade, deficiência ou qualquer limitação temporária ou permanente. Seu objetivo central é eliminar barreiras e promover autonomia, segurança e dignidade para todos os cidadãos.

Acessibilidade para idosos na cidade
Acessibilidade para idosos na cidade

Esse conceito abrange diferentes dimensões, entre as quais se destacam:

2.1 Acessibilidade

  • Ambientes físicos acessíveis, como rampas, corrimãos, elevadores adaptados, banheiros acessíveis, sinalização tátil, além de calçadas e sistemas de transporte que permitam deslocamento seguro e
  • Tecnologia acessível, incluindo sites compatíveis com leitores de tela, legendas em vídeos, bom contraste visual e comandos por voz, garantindo inclusão
  • Comunicação inclusiva, baseada no uso de linguagem simples, Libras, audiodescrição e materiais em braile, ampliando o acesso à informação.

2.2 Longevidade

Longevidade diz respeito ao aumento da expectativa de vida aliado à busca por qualidade ao longo do envelhecimento. No Brasil, o envelhecimento populacional ocorre de forma acelerada, com projeções que indicam que, até 2050, mais de 30% da população será composta por pessoas idosas. Esse cenário impõe desafios e, ao mesmo tempo, cria oportunidades em diversas áreas, tais como:

  • saúde preventiva e reabilitação;
  • moradias adaptadas;
  • sistemas de transporte acessíveis;
  • inclusão digital e social;
  • educação ao longo da vida.

2.3 A relação entre acessibilidade e longevidade

Com o avanço da idade, a acessibilidade deixa de ser uma demanda restrita a grupos específicos e passa a constituir uma necessidade universal. Mesmo pessoas sem deficiência podem, ao longo do tempo, vivenciar limitações físicas, sensoriais ou cognitivas que impactam sua interação com o ambiente urbano.

Nesse sentido, projetar com acessibilidade significa planejar para a longevidade. Ambientes acessíveis contribuem para a independência, a segurança e o envelhecimento ativo da população idosa, além de beneficiarem toda a sociedade. Da mesma forma, políticas públicas voltadas à acessibilidade desempenham papel fundamental na promoção de cidades mais justas e felizes.

O conceito de design universal — entendido como a criação de espaços, produtos e serviços pensados para todos desde a concepção inicial — estabelece a principal ponte entre acessibilidade e longevidade, consolidando-se como um eixo estratégico para o desenvolvimento urbano sustentável.

Design universal de espaços
Design universal de espaços

3. Acessibilidade e longevidade na arquitetura

Na arquitetura, acessibilidade e longevidade estão associadas à concepção de espaços capazes de atender pessoas ao longo de diferentes fases da vida. Diante do envelhecimento populacional, torna-se fundamental o desenvolvimento de projetos inclusivos, que considerem as diversas capacidades físicas, sensoriais e cognitivas dos usuários.

A arquitetura acessível tem como objetivo eliminar barreiras e promover autonomia, segurança e conforto, enquanto a longevidade na arquitetura se relaciona aos princípios do design universal, propondo ambientes utilizáveis por todos, independentemente da idade ou condição física, sem a necessidade de adaptações futuras. Isso inclui circulações amplas, rampas com inclinação adequada, pisos antiderrapantes, iluminação eficiente, banheiros adaptados, contrastes bem definidos, sinalização tátil e visual, e mobiliário ergonômico.

Nesse contexto, a arquitetura deixa de responder apenas a demandas imediatas e passa a incorporar uma visão de longo prazo, contribuindo para o bem-estar, a independência e a qualidade de vida ao longo de toda a existência.

“Arquitetura também envelhece. E os corpos que a usam, mais ainda. Grande parte dos espaços é pensada para corpos jovens, ágeis e sem limitações. Mas a realidade demográfica é outra. O envelhecimento traz mudanças previsíveis: redução de força, menor equilíbrio, alterações sensoriais, maior risco de quedas. Ignorar isso no projeto não é neutro. É produzir exclusão silenciosa.

Não é “arquitetura para idosos”. É arquitetura que continua funcionando quando o tempo passa. Arquitetura humanizada é aquela que acompanha a vida inteira.”

Citação do Grupo de WhatsApp do 2º Congresso Internacional de Arquitetura Humanizada

4. Adequação à NBR 9050 da ABNT e aos princípios do desenho universal

Em conformidade com a Norma Técnica de Acessibilidade da ABNT (NBR 9050/ABNT) e com os princípios do Desenho Universal, os projetos arquitetônicos voltados à acessibilidade e à longevidade devem assegurar condições de uso inclusivas, seguras e eficientes para o maior número possível de usuários.

Nesse contexto, o projeto deve promover o uso equitativo dos espaços, garantindo acesso digno e sem segregações; contemplar flexibilidade de uso, de modo a atender diferentes perfis e necessidades; e adotar soluções simples e intuitivas, facilitando a compreensão e a orientação espacial.

Adicionalmente, a informação deve ser perceptível por meio de recursos adequados de comunicação visual, tátil e sonora; os ambientes devem minimizar riscos e falhas de uso, assegurando tolerância ao erro; e possibilitar baixo esforço físico, favorecendo o conforto e a autonomia dos usuários.

Por fim, devem ser respeitadas as dimensões e os espaços necessários para circulação, aproximação e uso, atendendo às exigências normativas e às diversas condições de mobilidade, incluindo usuários de cadeira de rodas, pessoas com mobilidade reduzida, idosos e acompanhantes.

5. Princípios de acessibilidade urbana

Mobilidade Universal: planejamento de infraestruturas urbanas que assegurem deslocamento seguro e autônomo, incluindo calçadas adequadas, rampas, sinalização acessível e transporte público inclusivo.

Espaços Públicos Inclusivos: desenvolvimento de áreas públicas que promovam convivência e uso equitativo por pessoas de diferentes faixas etárias e condições, com mobiliário urbano e infraestrutura apropriados.

Moradia Adequada: estímulo à produção habitacional acessível, incorporando soluções arquitetônicas que garantam conforto, segurança e funcionalidade.

Tecnologia Assistiva: integração de recursos tecnológicos que ampliem a acessibilidade e facilitem o acesso à informação e à mobilidade urbana.

6. Benefícios de uma cidade acessível

Cidades que investem em acessibilidade promovem inclusão social, autonomia e qualidade de vida. Ambientes urbanos adequados contribuem para a redução de acidentes, fortalecem o convívio entre gerações e ampliam o acesso a serviços essenciais, como saúde, educação e lazer.

6.1 Boas Práticas em Acessibilidade Urbana

Iniciativas como vagas reservadas para idosos, gratuidade no transporte público, programas de requalificação de calçadas e a adesão a certificações internacionais voltadas ao envelhecimento ativo demonstram o compromisso das cidades com a acessibilidade e a equidade no uso dos espaços urbanos. Dentre os inúmeros exemplos, pode-se citar a Cidade Amiga do Idoso, iniciativa da Organização Mundial de Saúde (OMS) e o Programa Calçada Segura.

7. Síntese técnica

A aplicação integrada da NBR 9050 e dos princípios do Desenho Universal resulta em ambientes mais seguros, adaptáveis e inclusivos, capazes de acompanhar a diversidade humana ao longo do tempo com dignidade e autonomia, mas vai muito mais além do cumprimento de uma Norma Técnica.

7.1 Arquitetura, acessibilidade e longevidade

A integração entre arquitetura, acessibilidade e longevidade é fundamental para garantir qualidade em todas as fases da vida. Projetos arquitetônicos acessíveis favorecem a mobilidade, o conforto e a segurança, especialmente diante do envelhecimento populacional.

A arquitetura voltada para a longevidade prioriza soluções duráveis, flexíveis e funcionais, que se adaptam às mudanças ao longo do tempo. Quando esses conceitos se articulam, os espaços tornam-se mais inclusivos, preparados para o futuro e socialmente sustentáveis.

Arquitetura, acessibilidade e longevidade
Arquitetura, acessibilidade e longevidade

Rampas, corredores largos, elevadores e sinalização adequada são elementos essenciais ao pensar em espaços que atendam às necessidades de uma população que vive cada vez mais. O projeto de cidades e residências também deve valorizar soluções como pisos antiderrapantes, iluminação eficiente e áreas de convivência seguras, proporcionando acolhimento de diferentes corpos e conforto para todos, acompanhando as mudanças ao longo da vida e transformando espaços em experiência.

8. Conclusões

Como arquiteta, entendo assim que a acessibilidade deve ser compreendida como estratégia de longevidade, e não como exceção, como garantia de autonomia, segurança, felicidade e dignidade para todas as pessoas — com ou sem deficiência, em qualquer idade. A arquitetura exerce papel central na materialização dessa visão, ao transformar princípios em ambientes construídos mais humanos, seguros e resilientes.

Em síntese:

  • Arquitetura: espaços que acolhem e se adaptam às transformações da
  • Acessibilidade: autonomia, segurança e dignidade desde a concepção do
  • Longevidade: ambientes preparados para o envelhecimento e para a diversidade

Projetar cidades, espaços urbanos e arquitetônicos acessíveis para todas as idades é um compromisso com o desenvolvimento social no presente e no futuro, promovendo inclusão, participação cidadã e qualidade de vida para toda a população.

Regina Cohen é Arquiteta PhD. Gerente da Empresa ACESSO: Projeto, Consultoria e Ensino em Acessibilidade Ltda. (ACESSO SEM LIMITES). G3ict Representante do Brasil; Membro do IAAP; Consultora Internacional; Ex-Bolsista CNPq do Núcleo Pró-acesso. Visiting Professor FULBRIGHT/CAPES – Universidade de Syracuse, NY (2014); mestrado em Urbanismo e doutorado em Psicossociologia de Comunidades na UFRJ; Pós-doutorado FAPERJ; Ex-Coordenadora do Núcleo Pró-Acesso UFRJ; experiência em acessibilidade e desenho universal; elaboração Manual de Acessibilidade RIO 2016; Consultora da RIO+20; prêmio internacional AEEA 2004; publicações e moções premiadas; Ex-bolsista CNPq – Projeto “Acessibilidade na Copa de 2014”.